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Capítulo 4 - Max, é você?

Vejo o corpo imóvel envolto em uma poça de sangue e várias marcas nas paredes. Onde está é escuro, pode ser Julia ou algum de seus pais. Pode ser também um infectado, talvez esteja dormindo... Melhor ir preparado.

Com o braço de minha guitarra em mãos, vou caminhando devagar enquanto observo toda a casa e confiro os cômodos para não ser surpreendido pelas costas. Respiro fundo e caminho em direção ao corpo, espero que não seja Julia. Por favor, não seja Julia.
Chegando cada vez mais próximo ao corpo estendido no chão, ouço algum barulho em um quarto onde a porta está fechada. Se há barulho, deve haver alguém ali, tendo abrir a porta e ouço um grito e em seguida muito choro.

Pergunto:
_Julia?

Não há resposta... Não de dentro do quarto. O morto logo a frente talvez não fosse apenas um morto. Começava a se mexer. Concentrado no corpo há alguns metros, pergunto novamente:

_Julia?
_Max?
_AMOR??? VOCÊ TÁ BEM?
_Sai daí Max! Rápido, cuidado, ele tá louco!
_Amor, abre a porta para mim, não tem ninguém aqui além de nós dois.
_Mesmo?
_Amor, abre a por... NÃO ABRA!!!
_MAX!?
...

Subitamente o que aparentava ser apenas um corpo, e depois alguém aparentando começar a recobrar a consciência na verdade era o pai de Julia, seu Jair. Um homem em torno de 45 anos, mas que sempre foi muito forte fisicamente. Tinha sido professor de Jiu Jitsu por vários anos, não era alguém com quem uma pessoa ‘comum’ gostaria de brigar. Infelizmente, nesta nova realidade, não existiam pessoas comuns. Era cada vez mais comum existir apenas sobreviventes e comida!

E o pai de Julia não só se levantava como, embaixo dele, dava para ver outro corpo, presumo que era alguém que havia morrido já há alguns dias, só agora eu sentia o cheiro podre que exalava do local. Era a mãe de Julia, dona Marta, morta, separada em pedaços, servindo de alimento para seu pai, mais um dos desesperados. E esse desesperado vinha em minha direção.

_Max? Responde!
_...

Emudecido me preparei para a luta, quando o enfermo chegou perto o bastante, acertei-o com toda a força com minha arma improvisada, isto não o parou!

Rápido como sempre fui, desviei-me dele e corri até a cozinha, dando a volta na mesa. Julia, trancada no quarto, ouvia tudo. Saddam, na porta de casa, rosnava para o que já tinha sido seu antigo dono e uma ótima pessoa. O infectado, com os olhos repletos de um ódio mortal, tinha um grande corte em sua cabeça devido à minha pancada com o braço da guitarra. Ele me olhava como se soubesse que eu não tinha para onde correr, mas mesmo assim não queria arriscar. Atirou-se por cima da mesa, novamente acertei-o com o braço da guitarra, dessa vez com tanta força que o braço escapou de minha mão e voou longe. Agora eu estava desarmado, lutando contra um louco que devorava pessoas e animais. E pensando nisso, qual seria o motivo dele não ter atacado Saddam e ter-se mantido apenas com o corpo pútrido de dona Marta?

Com a pancada que acabara de acertar no enfermo, consigo dar a volta na mesa, esperando que ele não pudesse reagir por alguns segundos para que eu achasse algo que servisse de arma. Nem passava pela minha cabeça procurar uma faca ou algo assim. Queria correr para fora e rezar para que o rottweiler me protegesse. É, nem sempre a esperança é a última que morre... A minha só não morreu ainda porque ouvi a voz de Julia. Levantando-se em um salto, seu Jair corre em minha direção, e pensando em Julia, vejo que não posso morrer, se eu me for, ela será a próxima.

Tento correr até lá fora, mas o maldito se mantém a frente da porta e salta sobre mim. Tentando ir para trás para fugir do salto, tropeço e caio. O canibal salta sobre mim, não tenho como fugir, não há como correr. Luto! Tão desesperado quanto quem me ataca, me defendo! O seguro pelo pescoço enquanto tento me desviar dos golpes e tentativas de mordidas. Enquanto luto para não ser mordido e me tornar um deles, o braço de minha guitarra acerta a nuca do infectado, fazendo-o desmaiar.

Mais que depressa saio dali, e quando olho para ver quem me salvou. Julia está estática, profundas olheiras marcam seu rosto. Um rosto delicado que até uma semana atrás era parecia ser portadora de toda a beleza do mundo. Com seus lindos olhos verdes que outrora reluziam junto de seu sorriso que amolecia o coração de qualquer pessoa. Seus lábios agora eram secos e partidos, o que indicava que estava trancada no quarto a mais tempo do que eu imaginava. As lágrimas já não escorriam e sua expressão era mórbida e angustiada. Uma cena de filme de horror se desenhava no local.

Ela acabara de matar o próprio pai. Jair estava imóvel tendo uma curva deformada em seu pescoço, a curva indicava uma fratura. Seu pescoço estava quebrado e o canibal ainda respondia com pequenos espasmos musculares. Era seu sistema nervoso em pane anunciando a própria morte. Isto tornava tudo mais doloroso para a sua filha, que começava a ficar ainda mais pálida e se apoiava na parede. Segurei-a com força para evitar que Julia caísse e deixei-a desmaiar.

Coloquei-a suavemente na cama. Estava preocupado, contudo, o desmaio de Julia era a menor das minhas preocupações em vista dos dois corpos estendidos no chão da casa banhada em sangue, sem contar que o portão da frente se mantinha destrancado, com mais um corpo, ou o que sobrara dele, espalhado no jardim. Talvez se alguém realmente quisesse entrar aqui, as barreiras que fiz não agüentariam muito tempo.

Enquanto Julia dormia em sono profundo, busquei por ferramentas na garagem, sabia que seu pai possuía uma arma escondida em algum canto. Seria útil, deveria achar isto logo, mas uma pá seria mais útil no momento. Esta não foi difícil de achar.

Já devia ser em torno das 4 horas da tarde, em duas horas começaria a anoitecer e o frio chegaria. Precisava ser rápido. Comecei a cavar três covas, uma pequena para o que sobrou da criatura que Saddam destruiu e outras duas para as duas pessoas que estavam mortas dentro de casa. Depois de algum tempo, quando estava terminando as covas, Julia apareceu à porta, sua expressão abatida me comoveu e fui até ela.

Ela me abraçou forte, tão forte que até senti um pouco de falta de ar. Acredito que eu tenha feito o mesmo com ela. Julia disse:

_ Eu fiquei com tanto medo!
_Calma amor, agora está tudo bem, não vou deixar ninguém te machucar.
_ Não está tudo bem, você sabe. Eu queria ligar para você ou conversar de alguma forma, mas não havia luz e a linha estava muda. Meu celular está sem bateria, não sei mexer no gerador.

Julia chorava enquanto tentava falar e no momento em que citou o gerador, lembrei: Eles possuíam um pequeno gerador de luz para emergências, era movido à gasolina, ficava no meio das muitas coisas esquecidas na garagem. Passei por lá e nem ao menos o procurei. Seria realmente muito bom ter luz elétrica numa hora dessas.

_ Meu anjo, está tudo bem agora, eu vou te proteger!
_ Eu e a mãe tentamos ir lá fora, foi aí que vimos gente morta na rua e umas pessoas loucas, e duas pessoas vieram correndo para cá. Uma delas era o pai, e o outro não sei. O Saddam atacou o outro, nós corremos para dentro de casa. Minha mãe me empurrou pra dentro do quarto e logo em seguida, o pai pulou cobre ela. Foi horrível, amor!!!

Não havia palavras para consolá-la. Deixei que chorasse a morte de seus pais. Agora possuíamos apenas um ao outro. Será que muitas pessoas estavam mortas devido aos ataques? Será que haviam muitos infectados? Não parecia haver muitos infectados na avenida, não se comparados à população e à quantia de gente que normalmente andava por lá. De qualquer forma, outra hora eu pensaria nisso. Devia cuidar dos corpos e fazer o funeral e inventar um modo de proteger os portões e a casa antes que houvesse uma invasão do local.

Julia pareceu sentir isso, por mais ingênua e delicada que fosse, era inteligente e me entendia perfeitamente sem que eu falasse qualquer palavra. Talvez tenha sido essa a razão de me apaixonar por ela dessa maneira. Daria minha vida para que ela continuasse em segurança.

_ Você quer ajuda? Vai anoitecer e é melhor eu te ajudar com o enterro.

Colocamos os corpos em suas covas, que mais pareciam valas em um jardim que costumava ser cheio de flores e ter um lindo gramado. Cobrimos com terra seus corpos enquanto Julia se despedia de seus pais. Saddam parecia sentir o peso do momento e deitou na grama olhando-nos com uma carinha triste.

_ Amor, há quanto tempo você estava trancada no quarto?
_ Quase 3 dias...
_ Sem comida nem água?
_ Sim... Só tinha uma garrafinha de água e uma barra de chocolate dentro da minha mochila da faculdade. Eu racionei a água, mas você sabe que eu adoro chocolate né...
Um meio sorriso aparecia em seu rosto abatido, mas seus olhos não brilhavam como antes.
_Tome um copo d’agua e coma alguma coisa. Eu termino aqui.
_ Nós não vamos ligar o gerador?
_ Não hoje, é arriscado demais. Alguém que esteja lá fora pode ouvir. Ah, e por sinal, você pode conferir quanto de comida tem aí?
_ Tá, vou para dentro, já te falo.

Depois que citei a comida, lembrei que também estava sem comer desde que invadiram as kitinetes. Com tanta adrenalina e cuidado para não morrer em cima daquela caixa d’agua, acabei me concentrando apenas na sobrevivência. De qualquer forma, para que eu continuasse sobrevivendo deveria selar da melhor maneira possível o portão da casa e procurar pelo revólver na garagem.

Olhando com mais atenção, vejo que o portão não estava arrombado como achei que tinha sido. Apenas a maçaneta do lado de fora tinha caído deixando o portão com aspecto frágil e parecendo quebrado. Melhor ter certeza de que ninguém passará por aqui. Busquei por objetos e galhos fortes, e coloquei-os trancando o portão e barrando também a visão de quem tentasse olhar por debaixo dele. Mesmo passando a chave, optei por colocar um cadeado e usei o enforcador de Saddam como corrente para o portão de correr da garagem. Usei um cadeado no portão da garagem para dificultar alguma tentativa de entrada, também.

As janelas de casa tinham grades, assim como da maioria das casas da região. Incrível como as pessoas se trancavam dentro de casa quando na verdade os bandidos da nossa antiga sociedade é que deveriam estar enjaulados. Agora parecia ter assassinos demais nas ruas para trancar todos... Procurei pela arma na garagem, com alguma dificuldade encontrei-a. Era um revólver calibre 38, cano curto, cabiam 5 balas. Não era raro as famílias daqui terem um desses em seu lar.

Entrei em casa, já estava prestes a anoitecer e vi que Julia tinha limpado as marcas de sangue de toda a casa, havia tomado um banho e agora preparava nosso jantar. Pela primeira vez pude sorrir aliviado, olhei para fora e Saddam estava sentado na porta de casa, talvez esperando ganhar uma parte do jantar. Se não fossem os fatos que antecederam esta cena, pareceria tudo normal. Um casal feliz e seu cachorro que provavelmente era tratado como uma criança.

_ Amor, verificou o estoque de comida para nós?
_ Sim! – Respondeu Julia – Temos comida para uma semana inteira.
_ Maravilha, talvez nesse tempo tudo lá fora se acalme. Posso ir tomar um banho?
_ Sim, ao menos banho quente ainda temos. O chuveiro é a gás.
_ Melhor ainda. Vou trancar todas as portas e janelas e deixar a porta do banheiro destrancada para caso você precise de algo. Peguei a arma do seu pai, ela está carregada, mas não engatilhada, deixarei aqui em cima do balcão, tudo bem?
_ Tá! Ah, e amor, como faremos com o Saddam? Não é perigoso deixar ele lá fora? – Disse Julia, ingenuamente.
_ Acho que é... Perigoso para quem tentar entrar aqui! – Disse, rindo.
Julia sorriu com a piada. Continuei:
_ Já dei comida e água para ele.
_ Tudo bem.

No banho, chorei. Lágrimas de profundo alívio. Era como se tivessem retirado todo o peso do mundo das minhas costas. Talvez ainda houvesse esperança, Julia estava comigo, tínhamos tudo o que precisávamos para viver por uma semana. Estávamos em um local seguro e que não permitia a visualização de seu interior por quem passava lá fora. A preocupação era enorme, não queria deixá-la sozinha um só segundo, mas precisava muito deste banho. Com os olhos fechados, senti minhas mãos pararem de tremer e toda a angústia cessar. A água quente batia em minhas costas me fazendo uma massagem suave e relaxante.

Terminei o banho, me sequei e coloquei a única muda de roupa limpa que possuía em minha mochila. A falsa impressão de que tudo estava bem e o cheiro gostoso de comida no fogão me acalmava. No entanto, sabia que cedo ou tarde, iria enfrentar o inferno novamente. Uma hora a comida acabaria, assim como a água, o gás e as poucas balas do revólver. Era triste, porém, inevitável. Pensava comigo mesmo se seria vantajoso ligar o gerador de luz ou seria melhor economizar a gasolina e usá-la no carro, tentando fugir daqui para um local mais seguro? E... Ei! O Cheiro de comida pode atrair os infectados!!!

11 comentários:

Anônimo

Nossa! Ela limpou toda a casa ensangüentada?? Eitaa,agora sim hein... queria saber como ela fez isso. (Ta legal a historia!)

Anônimo

kra so de Cascavel-PR, vi o blog na comunidade do CAP, to curtindo muito a história, vlw, flw abraço

Anônimo

muito bom mesmo! :)

Anônimo

Parabéns, estou acompanhando a estória, e ansioso pelo próximo capítulo.

Turok

Liesely,X-14 faz maravilhas hehe

Sou suspeito para falar de historias de zumbis,adoro e essa não foge a regra,prende a atenção,ainda mais por ser em Curitiba,é uma coisa a se pensar.
Abraço!

Unknown

Muito bom cara !

rhuda

cara esta ficando muito legau
fico ancioso a cada episodio

Anônimo

Cara, cade o próximo Capitulo?? Estou a dias esperando!! Não conseigo mais comer ou dormir, preciso muito saber o que acontece!!! Ahhhhhhhh....

Ps: Parabéns, ta ficando muito bom!

Anônimo

Fantástica a história.
Parabéns!

João Guilherme Penteado

Capítulo 5 está próximo de ser terminado! Logo logo vocês vão poder conferir ele. Na minha opinião, é o melhor capítulo até agora, vai esclarecer alguns pontos e coisinhas a mais... hahaha

Anônimo

Esta muito massa.
Espero que poste logo

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