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Capítulo 3 - A procura por Julia

Já deve ser perto de meio-dia. Estou aqui em cima da caixa d'agua e esperando, de tempos em tempos aparece um infectado querendo me matar. Estava ficando difícil os fazer cair, pois depois de 2 ou 3 quedas, as escadas perderam boa parte do desengripante. Além disso, por um cair em cima do outro, alguns conseguiam se levantar e tentavam de novo... Resolvi 'jogar' diferente. Agora não estou batendo direto em cima de suas cabeças, mas sim do lado delas. Bater direto estava machucando minhas mãos, de lado parece ser mais eficiente, por mais que eu tenha que derrubá-los com maior freqüência, pois a maioria cai de lado, não derrubando os que vinham logo atrás. Talvez seja a mesma sensação de jogar golf ou baseball, se não dependesse disso para sobreviver, seria algo muito divertido. Acredito que todos os sobreviventes aceitariam esse jogo como novo esporte oficial das olimpíadas. Assim como uma modalidade que poderia se chamar 'Tiro ao desgraçado', já que o 'tiro ao alvo' já existe.

Olhando por este lado, não há muita diferença entre minhas ações e as dos infectados. Ambos estamos com raiva e querendo matar um ao outro. A diferença é que eu estou sozinho em um mundo tomado por criaturas desesperadas por sangue e repletas de ódio.

Estou cansado, olhando daqui de cima, consigo ver a cidade, ou o que sobrou dela... Alguns prédios pegam fogo, vejo vários focos de incêndios que devem vir das ruas e casas também. Um belo estádio de futebol de fachada vermelha fica ao longe, imponente e silencioso em um lugar onde o futebol pode nunca mais existir. Eu costumava torcer para este time e acompanhar seus jogos. Será que o estádio é um lugar seguro?

Olhando para baixo, conto 17 infectados ainda em pé ou tentando subir aqui, talvez haja mais, pois um tapa a visão do outro, se enfileirados nas escadas. Cinco estão deitados, imóveis, no chão após tomarem uma bela paulada na cara. Outros 3 se arrastam, devem estar com muitos ossos quebrados após cair de uma altura destas. Como quem não tem nada para fazer, fico aqui, contando quantas são as mulheres e os homens infectados que me esperam em meio a gritos, gemidos e olhares de puro horror. Ironicamente são apenas 3 mulheres, uma está andando lá embaixo, uma está imóvel e a outra se arrasta. Isso pode significar duas coisas. Ou as mulheres são mais cuidadosas e/ou mais difíceis de serem infectadas, ou então as mulheres morrem com maior facilidade devido à agressividade e violência sem igual dos outros enfermos. Espero que Julia seja uma das que não estão infectadas nem mortas.

Estou angustiado, não só por minha namorada quanto pela situação em que me encontro. Os malditos não saem daqui de cima, e se eu não acabar com todos até a noite, provavelmente não dormirei, ficando de vigia. Fora o frio que faz aqui, nesta época do ano. De dia é quente, de noite é 'um frio de partir os beiços' como diria meu avô. Peguei alguns agasalhos, mas não o suficiente para passar a noite de forma confortável. Até porque passar a noite em cima de uma caixa d'agua batendo em infectados não é confortável de forma alguma.

Mas que bela merda eu fiz em subir aqui... E mesmo sendo uma merda, foi a melhor decisão possível. Olhando em volta, não vejo muito por onde poderia ter corrido. Conseguindo fazer com que eles cansem ou morram, consigo descer daqui e ir pela rua paralela à avenida até a casa da Julia. Problema será conseguir me esconder até lá. Os muros em volta são altos demais e as casas todas tem cercas elétricas. Por mais que não haja eletricidade, elas impedem a passagem e atrapalham o percurso. Melhor eu traçar meu plano verificando o que de ruim pode acontecer a cada 10 metros e criar uma rota de fuga para cada possível erro. Afinal de contas, continuarei preso aqui por pelo menos mais algumas horas.

São duas quadras em linha reta e viro à esquerda, assim posso chegar até Julia. Como conheço bem a região talvez facilite. Há uma praça à direita, exatamente no ponto em que tenho que virar à esquerda. Isto significa que provavelmente aparecerão vários infectados atrás de mim. A praça é aberta e fica em um ponto mais alto, sem dúvida quem estiver lá poderá me ver.

Enquanto penso, um infectado em silêncio sobe...

_Espera, já sei. Tem um terreno vazio nesta quadra, com um muro um tanto alto. Posso atravessar o terreno... Subir no telhado das casas seguintes, que são mais baixas. - Falo comigo mesmo. Agindo desta maneira, consigo subir no telhado de uma grande revenda de motos que fica de frente à avenida, atravessando a avenida, chego ao meu objetivo, a casa da Julia. No entanto, não tem como descer do telhado da revenda de motos, é alto demais. Se eu conseguisse chegar lá, poderia tentar descer até o telhado vizinho à revenda e de lá para o chão. De qualquer forma, só vou saber se é possível depois de chegar lá. Vamos esperar e... Espera! Tem algo de estranho... há um bom tempo nenhum infectado aparece aqui.

Viro-me rapidamente e vejo um infectado muito próximo, está no último degrau da escada. Desesperado, espanco-o com o braço da guitarra, ele fica meio atordoado, mas já em cima da caixa d'agua, continuo batendo, até que ele não se mexa. Enquanto bato em um, outro tenta subir, dou um chute no seu rosto assim que ele aparece ao final da escada. O infectado cai e bate com a cabeça na mureta que cerca a estação. É... Este não vai ser mais problema. Empurro o primeiro, que se mantinha desmaiado após ser espancado. Jogo-o lá de cima.

Enquanto respiro aliviado, ouço um barulho de motor. Impressionado, assustado e ao mesmo tempo feliz olho para os lados e não vejo nada, então dobrando a esquina surge um carro. Um utilitário, com alguém andando não muito rápido, mas também não está devagar, parece fugir mantendo certa cautela. Corre o suficiente para deixar os infectados para trás, apenas. Como os infectados perdem a noção da realidade, eles desistem de mim e correm desesperados atrás do carro. Enfim poderei descer daqui, e é bom fazer isto rápido, antes que eles desistam do carro e resolvam voltar.

Depois de descer, olho para a rua, não vejo nenhum infectado. Pulo a mureta e corro, se aparecer algum doente é bom que eu já esteja correndo, até ele começar a correr, estarei longe.
Corro até o terreno vazio conforme planejado, pulo o muro, consigo alcançar o telhado das casas próximas ao subir no muro que divide o lote das casas e o terreno. Estranho não aparecer ninguém atrás de mim em 200 metros de percurso. Subo no telhado da revenda de motos conforme planejei anteriormente. De lá posso ver a avenida e a casa da Julia. O portão fica na lateral da casa, na rua que corta a avenida, então não consigo ver se o portão apresenta sinais de arrombamento ou não.

Na rua consigo contar 5 infectados vagando, cheirando e mordendo os corpos podres que estão no chão. Dentre eles, vejo minha cunhada, irmã mais nova da minha namorada. É uma visão assustadora, sabendo que as duas andavam sempre juntas. Clara tinha 15 anos, era uma menina alegre, mas como toda adolescente, revoltada com o mundo.


Levando em conta que Clara é uma infectada, talvez ela tenha entrado em casa após se tornar uma deles. De qualquer maneira, tenho que tentar achar Julia. Infectada ou não! Procuro por uma forma de levar a atenção dos infectados para longe da avenida. Pego a lata de desengripante, que antes tinha me ajudado e atiro-a longe, com o estrondo do alumínio batendo no chão, todos observam curiosos, ao verem a lata rolando rua abaixo e seguem-na procurando algo que não conseguem enxergar.

É minha maior oportunidade, desço do telhado, em direção ao telhado vizinho que é mais baixo, dali consigo passar facilmente ao chão. Há uma grade protegendo o lugar dos acontecimentos da rua, salto-a fazendo o mínimo de barulho possível, pois os infectados ainda estão por perto e podem, simplesmente, esquecer a lata e virar-se para cá. Atravesso a avenida correndo e me abaixando junto aos carros, para que ninguém possa me ver. Numa terra de ninguém é melhor não ser visto nem pelos infectados nem pelas pessoas não infectadas, que a estas horas devem estar, em sua grande maioria, ensandecidas.

Viro à esquerda na esquina, buscando o portão da casa que eu procurava, assim posso chegar ao meu objetivo e ainda ser encoberto pelo muro. Já não ouço o barulho da lata rolando, mas ouço os infectados voltando à avenida. Tenho de ser rápido. São apenas alguns passos até o portão e quando chego nele vejo exatamente o que não queria ver.

O portão estava arrombado e entreaberto. No gramado, restos do que foi uma pessoa.

Entro sem fazer barulho, talvez este seja meu fim. Infectados lá fora e infectados aqui dentro? É só o que me falta... Olho em volta e vejo marcas de sangue e um corpo todo rasgado e dilacerado. Tudo feito à dentadas. Ouço o rosnado de um cão que conheço bem... É um cão da raça rottweiler, seu nome é Saddam. Deus queira que ele não esteja infectado.

Costumava ser um lindo cão, preto com o peito e o final das patas em cor caramelo. Parecia usar pequenas botas nas patas, devido à mudança abrupta de coloração da pelagem. Era forte e tinha muitos músculos, sua mandíbula poderia rasgar qualquer pessoa facilmente. Costumava ser dócil apenas comigo, Julia e algumas poucas pessoas. Era treinado para defender seu território e não saia de casa sem permissão, por mais que o portão estivesse aberto. Um perfeito cão de guarda.

Preparado para correr (novamente), viro-me esperando pelo pior... O cão corre em minha direção e fico estático, ele já está a 2 passos de mim, sem chance de fugir. Ele pula e me derruba, fecho os olhos esperando a dor e a morte.

Ela não vem... O cachorro me lambe feliz da vida, abaixa a cabeça e as patas dianteiras, e ergue as traseiras, balançando o rabinho, querendo brincar. Tremendo com o susto, me levanto e agrado meu amigão. Sempre gostei de cachorros, ainda mais de grande porte. Pergunto a ele se viu Julia e ele não aparenta entender. É lógico, é só um cachorrão, por mais esperto que seja, não vai falar minha língua. Encosto o portão arrombado, e procuro por alguns galhos e madeira para trancá-lo. Saddam parece querer me ajudar, me seguindo por todo o percurso. Fecho o portão antes mesmo de encontrar Julia, pois é melhor lutar com poucos infectados aqui dentro tendo o rottweiler como ajudante do que deixar que entrem os que estão lá fora.

Olho novamente para o corpo do homem o qual Saddam destruiu, começo a acreditar que os cães não são infectados por esta doença. Lembro de ter visto de relance cães de rua cheirando e comendo os corpos espalhados pelo asfalto, antes da kitinete ser invadida. Espero que não sejam mesmo, pois enfrentar o Saddam querendo brincar já foi de borrar as calças, não quero imaginar pelo que passou a pessoa que invadiu a casa, cujas entranhas ficaram espalhadas no gramado. Viro-me para Saddam de novo, e vejo-o sentado, parece sorrir para mim. Seu pequeno rabo ainda balança indicando sua alegria.

Pego o braço de minha guitarra e me preparo para entrar. Bato na porta, talvez esperando uma boa recepção. Não há sinal de movimentação dentro da casa. Abro-a e vejo o que não queria.

Havia sangue nas paredes e ao final do escuro corredor, um corpo estendido parecia fazer parte da decoração macabra do lar de Julia.

7 comentários:

Anônimo

Legal mesmo, quero ver o final :D

Anônimo

a historia é legal ! mais tenho uma duvida..
como um infectado passa a doença para outro sendo q eles atacam e matam suas vitimas ?

Anônimo

tipo ... se voce tem uma ferida e entra em contato com o sangue de alguem infectado , voce pega a doença ou se uma pessoa recem infectada espirra perto de voce .. mesmo ela nao aparentando ser infectada ela contem o virus !!

Alexandre Baraldi

continuaçao muinto boa a historia

João Guilherme Penteado

Então, alguns infectados, desarmados, podem atacar mordendo, arranhando, etc. Saliva ou sangue contaminado em contato com alguma ferida exposta ou mucosa, podem infectar as pessoas. A infecção está só no começo, aguardem e terão todas as respostas!!! Os próximos capítulos já estão chegando!

Sammy

demais ._.

Anônimo

ta demaiss....deixo ir pro proximo capitulo

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